Agonia

– É o que sinto toda vez que te vejo e não posso falar o que penso;

– É ouvir várias vezes o teu áudio e pensar que por um momento eu fui tua lembrança

– É querer levar a sério as tuas brincadeiras

– É querer perguntar se posso levar a sério as tuas brincadeiras

– É quase querer arrancar de ti uma palavra que eu queira ouvir

– É começar a pensar se isso tudo não está sendo uma trama da minha cabeça

– É pensar no nosso encontro que nunca aconteceu

– É querer ser mais do que sou agora e te encostar na parede para saber qual é a tua

– É te desejar

– É te querer

– É ficar calada

– É querer saber se teria sido diferente se tivéssemos nos encontrado antes

– É te encarar e não poder te beijar

– É te decifrar

– É não poder comentar com ninguém

– É postar uma coisa inteligente e esperar que você me veja ali

– É querer dizer que eu sou mais que um exemplo para ti, que eu sou alguém que quer te provar

– É saber que não sairemos da imaginação.

Office Romance

08:02h

Cheguei.

Meus olhos vão direto na mesa dele: arrumada, simples, iluminada… vazia.

Respiro. Ando conversando até minha mesa, sento, inicio a bagunça do dia, muita tarefa. Me abaixo para pegar meu computador na gaveta. Levanto e meus olhos novamente alcançaram a mesa dele: vazia. 

Volto de novo.

Começo a ler centenas de e-mais que brotaram de ontem para hoje. Respondo cada um, mesmas pessoas, mesmas solicitações; me perco nas demandas lotadas do to-do e nas reuniões agendadas: o dia começou.

10:07h

Menos uma reunião. Saio da sala, volto para minha estação e com ar de deboche olho para mesa dele… uma mochila. Respiro aliviada ansiosa com a sensação de que meu rosto vai me denunciar por isso. Corro os olhos de volta para o e-mail que está gritando no canto do meu notebook. Será que alguém viu minha mão suar?

10:43h

Ouço uma voz acelerada, alta, livre e imponente. Ouço outra voz mais suave, poucas palavras e fortes decisões. Uma conversa chama atenção: ele está ali atrás. Provavelmente mexendo no celular, mandando alguma coisa ou resolvendo problemas diretos. Voz acelerada, alta, livre e imponente.

11:38h

Encosto meu corpo na bancada de um colega e discutimos sobre inovação de produtos. Somos três, na verdade: um pensando, um agindo, um olhando… Sim, estou olhando para minha direita porque uma voz acelerada distante começou a aumentar, a pressa do andar apareceu e a companhia tradicional me chamou atenção: ele estava chegando perto. Voltei para reunião: inovação, produtos, CAPEX… mão, cabelo para trás, seriedade, olhos castanhos, boca rosada, prazo, ação, produto, postura, boca, olhos, inovação.

Ele olha (será para mim?) e abaixa a cabeça. Os milésimos de segundo que o tempo parou para que eu pudesse encontrar aquele olhar focado passaram e tudo voltou ao normal. Ele passa. Cumprimenta a todos, mas não passou por mim. Abaixo a cabeça e volto para reunião. Um sucesso: prazos fechados, ações garantidas e uma vontade de morder aqueles lábios que não passa, sem sucesso, sem data.

11:44h

Ele olha e vem na direção. Minha direção.

Eu estou suando agora.

Meu cabelo está uma zona, preso em um rabo de cavalo despenteado com as pontas voltadas para o pior lado do meu rosto. A roupa amarrotada, o óculos de paraquedista e a bota parecendo um sport nada fino industrial.

Estou cheirosa? Empurro o corpo para parecer magra e dou uma ajeitada na posição, para parecer o menos preocupada possível com a aparência. Finjo que a conversa está interessante e pareço concentrada para ele não imaginar que estou à toa.

Ele chega.

Cumprimenta a todos. Eu estou no todos, mas estou de costas. Ele fala com cada um. A voz, mais próxima do meu ouvido, mais atraente. Eu derreto e viro de frente. Ele me olha. Por que olhar tão rápido? Parecia que não nos víamos há 05 anos, mas eram só 04 dias!

Eu olho de volta. O tempo para: eu abraço? Eu aperto a mão? Eu dou um sorriso? Eu me jogo em cima dele? O tempo volta: eu digo ‘oi’ e aperto sua mão rapidamente que nem o sinto. Volto a ficar de costas.

Ele vai embora.

Comecei a perguntar: por que quando eu te vejo parece que meu corpo aquece tanto que meu rosto transmite essa explosão por minhas bochechas? Eu não sei o que fazer, porque meu sorriso me denunciou: eu já tô na tua.

Eu abaixo a cabeça e começo a rir sozinha um sorriso malicioso, cheio de desejo. Tão rápido, tão intenso, como quando eu vejo que você visualizou meu status. Nossa, por isso eu quero postar mais. Eu quero que você me veja.

16:24h

Não, eu não quero que você me veja. Eu quero que você me conheça.

Eu quero que você me queira. Agora. Me convide para sair daqui A-G-O-R-A.

Não seja tão educado e diz que quer me prensar entre teu corpo e uma parede (ou banco ou um colchão) e que levante meus braços, segurando minha mão e me olhe nos olhos e veja que eu já derreti em cima e em baixo. Que com seu rosto vire o meu e chegando na orelha faça um carinho para que eu gema respire em ti.

Eu quero que você ainda não me beije. Eu quero que você me encare.

E eu quero que você pisque para mim como sempre faz. Quero que segure minha mão por segundos infinitos como você sempre faz e que admita que não temos muito o que falar, mas que você faz questão de estar sempre por perto jogando indireta, me fazendo acreditar que existe dentro de ti uma vontade enorme de saber o que te prende a mim.

Dentro de mim.

18:10h

Guardo o computador, desligo minha bagunça e com ar de deboche olho para tua mesa: simples, iluminada… não mais vazia.

Pego minha mochila, coloco nas costas e sigo para casa, indo encontrar meu marido e você sua esposa.

Pensando… por que?

(…)

 

Create your website at WordPress.com
Get started